terça-feira, julho 18, 2017

corrente


 
Olho o mar
mediterrâneo
prestes a cumprir
mais uma vez
o olhar o mapa
fechar o zíper
mala nas costas
o último gole
na cerveja antes
do ônibus sair
penso em colocar palavras
na garrafa
mas do mediterrâneo
até você
quantos estreitos terá
que passar
será que você
será que você ainda
se põe
em mim?



terça-feira, julho 04, 2017

real



Diferentes lugares onde
o sultão
cuidadosamente escondia
e fodia
suas amantes
estão abertos
ao público por
10 euros

São lugares de mármore
e pedras
colunas adornadas e
mandalas na parede

Ontem publiquei memórias
travestidas de
poesia

10 euros é o preço
aproximado para
se abrirem
ao público

Não há só distâncias
entre
um poeta e
um sultão


sexta-feira, junho 30, 2017

kayaköy



Engraçado, sentado agora no quarto de hotel não se lembra direito do que o fez partir. Precisava. Precisava ir. De longe, os motivos são borrados pelos atos, e nada é mais contundente do que este lugar presente. Ele se senta na beira da cama branca e respira o enfado: ônibus, um novo lugar, abrir as malas, comer torradas, café, chá, talvez ovos, tomar banho e sair. As variações eram pequenas: às vezes um avião no lugar do ônibus. Às vezes sentado numa cadeira no lugar da cama.  E sempre o deslocamento. Os sons indecifráveis que já nem tenta decifrar. A língua como barreira ao invés de algo que roça

Acontece que, mesmo aqui, você se sentia assim, foi o que ela disse na última vez em que se falaram no telefone, uma chamada de som baixo e abafado. Ele tentava escutar, sentado na cama


Fora do quarto o sol queima a pele. A sensação de cabeça inchada pronta para explodir. Ele anda pela cidade, simplesmente anda, desviando do trânsito, gente, pega ruas escondidas, de nomes impronunciáveis, e segue o corpo, sem compromisso. Não sabe onde está

Antes de partir, às vezes esquecia a rua daquele restaurante, ou da casa onde morava havia quase um ano, e às vezes passava o dia calado, e quando pensava em falar a voz não saia, não dava conta do que sempre quis tocar. O outro. Ele tentava disfarçar. Queria parecer normal. E sorria. Se sorrisse talvez tivesse alguma chance. Mas em algum momento olhava para o nada, e quem falava com ele às vezes olhava nessa mesma direção, buscando o que ele via, e então o olhava de volta, sem compreender

 Enfim, ele está aqui, suado, andando há quase uma hora. Olha crianças jogando bola. E de repente a buzina, a freada, ele se assusta e leva os braços à frente, um carro, um carro freia muito próximo e quase o atropela.  O motorista não para e tampouco grita xingamentos. Ele observa o carro ir. Olha para as crianças, que o observam por um longo minuto, até uma delas tomar a bola das mãos da outra e o jogo recomeçar. Então ele se movimenta. Se esforça para controlar as pernas, que sente amputadas, e pega uma rua vazia. Chega a um caminho de terra, há algumas casas de pedra. Elas parecem abandonada. Uma cidade fantasma. Ele entra


Caminha pelas casas, algumas sem teto, a maioria sem portas, todas feitas de pedra, e então imagina que naquela casa ali provavelmente morava a menina mais bonita do vilarejo, cabelos escuros e pele marrom, e quem sabe se eles não se encontravam no canto daquele juro ali, que ele dizia, e ela ouvia e ria para ele enquanto sentava no muro e levantava a saia

Ele passa pela casa que poderia ter sido a de seus pais, onde passou muito tempo na sala brincando no chão, e depois encontra a casa onde entra, abaixa as calças, e começa a se tocar até expelir tudo no chão, na terra, e levanta os braços, mirando o céu, refundando a cidade sob sua porra, e então vê um casal de borboletas brancas, e agora, além do barulho de sua respiração e de seus passos, ouve o barulho de pássaros, e segue andando pela ruela até chegar à igreja principal. O portão está fechado, ele quer entrar, mas começa a recuar, recuar para que, quem precisa obedecer até as ruínas, e então ele procura pedras para empilhar e pula o muro

Dentro da Igreja, passa a mão pelas paredes descascadas e começa a ouvir vozes. Procura, procura as vozes, não vê ninguém, sai da igreja, e continua caminhando, em direção à casa no alto da montanha, sua pela testa, a luz forte, clara, quase branca, mais vozes, outros passos, ele olha em volta, nada, nada, e mais barulho, e então, e  então eles começam a aparecer

Alguns tem roupas coloridas, outros tem roupas cinza, bege, olhos grandes, olhos puxados, falam línguas diferentes, trazem câmeras pretas e prateadas penduradas nos pescoços, e ele se aproxima, solene, e bate a mão no peito, e o indicador para cima, El duardo, ele diz com firmeza aos que chegam, e eles respondem de diferentes modos, alguns acenam com as mãos, outros seguem em outra direção, e ele vai caminhando cada vez mais firme

A cidade se enche cada vez mais, um homem toca a barba do outro, olha o pelo levantado e sorri ainda sem saber que esse detalhe o fará se apaixonar. Uma senhora toca as pedras do chão enquanto tenta se levantar, e é tocada por alguém que lhe estende o braço, e o olhar de uma moça toca o de um rapaz, dizendo não a seu apetite e ao convite para a pele. As horas passam e ele agradece aos ventos pela prosperidade, e já sabe onde será fundada sua casa, e vai começar a arrumação, fincar os dedos na terra, até que algo estranho começa a acontecer

Eles começam a desaparecer

Ele se desespera, procura ao redor, tenta falar, os manda ficar, se exalta, fala alto, os proíbe de sair, mas eles não se importam, sequer parecem entender, alguns dão risada, outros fecham a cara, mas todos seguem. Ele tenta impedir, mas é empurrado. Eles gritam coisas que ele não consegue

decifrar

 e o sol se põe, e ele coça os olhos e sabe que precisa ir, sair dali, e começa a caminhar, procurar a saída, a noite está escura e ele anda, anda, e sai em becos e mais becos, e ruelas, e novas casas, a cidade o começa a engolir, ele se desespera, não tem comida, nem água, e então senta-se debaixo de uma árvore e silencia

O silêncio. Ele tenta, vira a cabeça, mas não ouve, não ouve nada. Nenhum barulho. Já não há pássaros. Nem gente. Nem borboletas brancas, e os fantasmas são mais assustadores quando estão calados. Num ímpeto ele levanta, caminha, caminha mais, procura, entra numa ruela, em outra, que dá em outra e, mais outra, e então dá um berro e não aguenta mais. Ele para. Uma baba lhe sai pela boca. Até que ele apoia a cabeça em uma das mãos e ouve. Ouve moscas. Ele ouve apenas o som
de moscas