segunda-feira, agosto 01, 2016

Ampulheta


Ampulheta



Jaime queria poemas

que durassem

eras longínquas.



Brielle fazia

cirurgias

na cara.



Michel pagava

o congelamento

da própria carne.



Darcia se estapeava

pela efemeridade

vazia.



Jean

só comia

sem agrotóxicos.



Mauro fotografava

Tudo

tanto.



Para Abdul,

é dádiva morrer

da vida.



Arroz


As feridas nas costas dele. Rasas. Fundas. Com casca. Cicatrizadas. O braile onde ela faz suas leituras e que, fosse mais um copo de vinho, poderia recitar.


Sentados na cama.

Ele não a beija. Nem antes. Nem depois do gozo. Ela prepara o chá. Ele põe a cara solene, ajeita os óculos, a barba mal feita, o nariz bonito:


Tudo acaba. A dança. O doce. Os cabelos. Os fluídos. Tudo acaba. As pessoas se vão.
Então, não precisa amor.

O arroz.

O quê?

O arroz nunca acaba.


Quase nunca. Mas acaba. E isso também é triste




De sal

Fecho os olhos. A respiração.

Entro o mar.
Morrer e nascer
não só por trauma e dor
mas pela ampliação natural
da existência o corpo antes, esgarçado
se abre
e desliza
para o chão
então outro
de sal
eu sou