quinta-feira, dezembro 01, 2016

Reunião



Estou sentado na sala de espera. O chão branco, um mármore que brilha, quase um espelho. Na minha frente um sofá com outros dois. Um homem e uma mulher. Eles olham o celular. Movem os dedos. Como se olhar o celular resolvesse alguma coisa. Bom. Talvez resolva. Talvez essa forma de não olhar seja alguma coisa. Enquanto isso, esperamos. No mesmo lugar. Na mesma sala. Mas não juntos. É estranho. Olho para a direita e, na sala contígua, em cima da poltrona, ele está sentado. Papai Noel. As mãos imóveis, vestidas com luvas brancas. A da direita levantada como se cumprimentando quem chegasse. Um cumprimento eterno, como se cumprimenta quem entra num lugar de onde não irá sair. A mão esquerda carrega um saco dourado. Não sei o que significa. Talvez o segredo da vida. Eu tentei esperar da minha sala. Enquanto trabalhava. Acho mais fácil esperar enquanto movo as mãos. Digitar. Escrever. Mas não. Não consegui ficar nem por cinco minutos. Eles telefonaram e me chamaram de volta, para eu esperar aqui, nessa sala, nessa poltrona, olhando esses outros dois.

O tempo passa. Quer dizer. Não passa. Uma senhora de cabelo cinza azulado entra na sala, nos cumprimenta, senta no último lugar vago do sofá e começa a mexer no celular. Mais uma hora. A senhora se levanta e sai. Há uma câmera na parede direita. Não aguento mais olhar o Papai Noel, o abajur, a janela. Não aguento mais trocar frases com esses dois. Eles estão nervosos e falam do prazo dos trabalhos que têm que entregar.

Finalmente, uma voz ecoa: Helena, Fernando e Marcos. É uma voz de mulher. Nos levantamos de pronto, prontos para entrarmos. Mas não. Antônio aparece na sala.  Engraçado. Eu nunca o tinha visto vestido assim, de modo tão formal. Acho que é um fraque o que ele veste. Preto, com alguns detalhes, como a gravata, em vermelho. Antônio veste luvas brancas e traz uma bandeja prateada, coberta por mais prata. Nós já entendemos. E voltamos a nos sentar. Ele se aproxima de Helena e abre a bandeja. Vejo uma arma preta. Não entendo muito de armas, mas parece um trinta e oito. Pensei que a solenidade seria mais cara. Helena, que já é clara, fica ainda mais pálida e olha para Antônio. Ele confirma com a cabeça e aproxima a bandeja. Ela treme tanto que mal consegue segurar o cabo de madeira. O tambor está aberto. Ela respira, gira, fecha e aponta para a própria cabeça. Antônio tem os olhos fixos. Ela aperta o gatilho. Silêncio. Antônio não espera. Pega a arma das mãos de Helena e põe nas de Fernando. Ele não quer pegar. Antônio dá um tapa forte na cara de Fernando, que começa a chorar. Sinto, acima de tudo, enfado.  O mesmo que sinto em casamentos. Formaturas. Não há saída. Fernando levanta a arma e aponta para a própria cabeça. Miolos na janela, eu penso. Mas não. Fernando abre os olhos e pode acreditar. Está vivo. Eu nem espero Antônio. Levanto da poltrona e pego a arma das mãos de Fernando. Antônio fica nervoso, mexe as pernas e os braços dentro do fraque. Atropelo a solenidade. Aponto a arma para a minha cabeça. O caralho! Aponto para Antônio. Ele leva as mãos à frente e sinto muita, muita vontade de atirar. Ele corre na direção do sofá. Aponto para ele, para Helena, para Fernando. Você está louco, ela grita.  Foda-se, eu penso. Levanto. Disparo. Pouf. Acerto a cabeça. A testa do Papai Noel. Acho que esse não será um bom Natal. Um som alto corre a sala. Os alarmes estão ligados. Corro em direção à saída. Ouço passos apressados no corredor        

sexta-feira, novembro 04, 2016

Queda De Esquerda


Hoje volto aqui, é a segunda vez, e essa é pra tirar os pontos, e repare que eu disse tirar e não entregar. Tem gente que acha que tirar os pontos é a parte fácil porque, afinal, se você andou até aqui pra tirar os pontos é porque não morreu nem nada do tipo, mas quem diz isso nunca teve ter passado pela situação de ter um sujeito com uma espécie de pinça prateada puxando a linha da sua testa como se fosse a barra de uma calça. Enfim. Não vou choramingar. Aqui na recepção a TV está ligada, e vejo que o Boni é o novo ministro da cultura. Parece um pesadelo estereotipado de esquerda,  ver a maior emissora de televisão do País tomar o ministério da cultura. Mas esse é só o começo. E parece que esse cara tem um filho que chama Boninho. Acho que cuida do BBB. Boni e Boninho. Fiquei na dúvida se colocava essas referências aqui, porque escritor sempre fica meio assim de usar esse tipo de referência, que provavelmente vai deixar a porra do texto datado.  Mas se deu vontade, fazer o quê? Não usá-las na esperança de ser lido daqui a milhares de anos sem parecer datado? Haha. Deixa pra lá. Viver é mesmo um ato de fé. Enfim, o fato é que estou aqui esperando ser chamado, esperando a moça do balcão dizer sem maiores entusiasmos, Sr. Eduardo, a segunda porta à direita, no final do corredor. Porra, tinha que ser à direita, eu penso. Se você me perguntar, os pontos que vim tirar eu tomei num acidente de bicicleta. Um cruzamento. Uma encruzilhada. Eu, a bicicleta, o cabelo bem solto no vento, noite, e o chão molhado da chuva que tinha refrescado um pouco esse arroto insano que é a cidade. Ele, um automóvel rápido demais, que parou próximo demais. Era um automóvel ou tinha um ele ali? Eu, que tento me desviar, mesmo enfiado até a testa nessa má combinação. Derrapo, caio de esquerda e pof, bato a cabeça no chão. Eu, que ouço o barulho seco da pancada, misturado ao de algo que se quebra, talvez um vidro ou sabe-se lá o quê; tomara que não perca minhas memórias, é o que tenho tempo de pensar. Ele, um automóvel, que se vai. Eu, que enxugo o sangue da testa na camiseta branca, tudo vermelho, empurro a bicicleta até em casa e vou parar no hospital.  Ainda bem que as filas não frequentam os  hospitais de madrugada. Pelo menos por enquanto. E então a história começa. Estou ali, o sujeito de avental branco me manda deitar na mesa, acho que é o Doutor, tem um outro na sala também, de roupa verde, esse só pode ser assistente, Doutor não deve usar verde, aí, eu te falo, o sujeito tava com uma agulha na minha testa, é anestesia, ele diz e, depois de saber que foi de bicicleta, me pergunta se eu estava naquelas ciclo faixa do Haddad, não pode ser que eu esteja ao mesmo tempo levando uma agulhada na testa e ouvindo uma piadinha reaça, eu penso, deve ser a pancada, mas ele repete, tava nas ciclo faixa do Haddad? e olha para o assistente de verde, que dá uma risadinha, e então é isso mesmo, estava acontecendo mesmo, aí eu penso em mandar ele pra puta que o pariu, já to todo fodido mesmo, mas ele vai costurar a minha testa em um minuto, então não parece uma boa ideia, e eu digo algo como lá não tinha uma ciclo faixa, mas talvez fosse bom se tivesse, eu nem sei, porra, ia ser foda se ele falasse de algum cubano do mais médicos,

Sr. Eduardo, a segunda porta à direita, no final do corredor, finalmente a recepcionista me chama, e eu vou meio nervoso, acho que fico um pouco estranho em lugares onde deixam a TV ligada


segunda-feira, outubro 31, 2016

Gueixa & Salmão



Tinha vezes que eu ficava te olhando fazer a unha. Você gostava. Gostava quando eu te olhava. Você usava aquela lixa verde pequena. Raspava. Separava algodões. Molhava. E escolhia lentamente, entre os quatro ou cinco frascos coloridos que ficavam em cima da tua mesa. Lembro do azul e do vermelho.

Você não percebeu o dia em que enlouqueci. Enlouqueci mesmo. Sabe daqueles que antigamente tomavam choque quando enlouqueciam? Então. Era eu. Eu falava nada com nada mesmo, como: a gueixa e o salmão se estranharam na Bienal. E depois eu falava até babar. No queixo. No canto da boca. Sabe? Mas você não percebeu. Quer dizer. A baba acho que você até percebeu. Tem vezes que a gente não percebe porque não consegue imaginar. Não consegue imaginar aquilo acontecendo, mesmo estando acontecendo. Então a gente como que não percebe. Mas acho que não foi isso. Você não percebeu porque começou a falar de como você fica quando fica nervosa. Depois falou do seu livro que estava no último capítulo. Eu preferiria um choque. E aí você contou do dia quando era criança e estava no parque esperando para andar na montanha russa e encostou numa grade acho que do barco viking ou do castelo do terror e levou um choque.

Pois é. Aí eu perdi, sabe? Soquei a parede umas três vezes até machucar bastante a mão. Joguei a xícara branca de café no chão. A asa espatifou. Você me disse que estava assustada. Pensei que você ia falar de como é quando você fica assustada. Mas não falou. Dessa vez você ficou quieta. Me olhando. Quer dizer. Parecia que estava me olhando. Mas não estava.  E a essa altura, eu já estava me enrolando na sua cortina marrom, que ia despregando da parede. Sei que a culpa não é sua. Ninguém está olhando. Talvez seja difícil. Talvez você estivesse pensando na cor do esmalte do seu pé. Bem no dia em que enlouqueci


quarta-feira, setembro 21, 2016

J.


Fico te olhando   
adestrar teu cão.

Você quer que
quando chamem pelo interfone
ou soem a campainha
ele vá para um canto
ao invés de latir forte
e correr até a porta
justo ele
que é centenas de vezes
mais vivo
do que nós.

Ele ignora
e se agita
e você fica ali
repetindo o comando
e só dá comida
quando ele assente.

Até que ele obedece.
Porque é você.

Você alterna entre alguma dureza
e um tom conciliatório
e por vezes se alegra
e  com a voz doce
o chama de bebê
o mesmo apelido estranho
com que você me chama
eu
que tantas vezes obedeço
porque é você.

Acontece que agora
ao invés de latir
ou morder tuas mãos
te digo: acabou

terça-feira, setembro 13, 2016

Flúor


Senti os pedaços duros de alguma coisa em minha boca, e no começo ficava passando a língua e pegando aquilo na minha mão, umas coisas brancas, a gente entende quase nada do que nos acontece, foi só depois que entendi, e lembrei do Betinho, meu amigo que conheço desde muito, o primeiro amigo do colégio, acho engraçada essa palavra, colégio, vou envelhecendo e gostando de palavras datadas, e o fato é que o Betinho vive com esse pavor dos dentes dele caírem, e vários efetivamente caíram, uma vez a gente estava ali conversando de boas e ele começou a ficar bem agitado, e parecia que estava mastigando alguma coisa, mas estávamos comendo nada, era só cerveja, e ele ali meio em choque, colocando a mão na boca, remexendo e tirando umas coisas brancas, meio amareladas, o Betinho é do tipo que vai ficando pálido quando está com medo de alguma coisa que ele julga séria, e eu acho que há um tempo a coisa que ele julga séria é esse medo de morrer, ele fala bastante sobre isso e tentou tudo que é coisa, Igrejas, Budismo, Umbanda, agora anda bem enfiado nessas transas de Candomblé, eu sei lá, é sempre assim, um salve-se quem puder, imagino que quando a vida apertar mesmo eu também vou ser um desses que começa a acreditar, e vai ficando com esses papos esotéricos como se alguma força me permitisse enxergar o fundo, eu nem sei, o fato é que agora ela vem com esses olhos claros, a Ana, eu nunca entendi como alguém podia ter olhos como aqueles, de uma cor esverdeada e amarelada ao mesmo tempo, como se feitos daquela parte em volta da semente do abacate, eu não entendo esses olhos, mas enfim, depois de colocar as luvas, me mandar abrir a boca e examinar tudo, a Ana, minha dentista, me vem bem tranquila e solta a notícia, é canal mesmo, fodeu, eu penso, e fecho a cara, e torço para encontrar ninguém depois de sair desse consultório, porque quando você está cagado dificilmente não vai cagando tudo em volta e formando um rio de merda, como o que atravessa essa cidade ao meio, um grande monumento gritando que só a coprofagia nos une, mas enfim, tenho que voltar para o trabalho, o horário, os problemas, hoje está sendo um daqueles dias, e de novo penso no Betinho, se por um lado ele é paranoico, por outro deve ser ótimo saber o motivo, e ele sabe muito bem porque os dentes dele caem. Agora eu, eu não sei direito, e tenho que ficar ouvindo coisas como as que a Ana fala, que deve ser açúcar, talvez o cafezinho no trabalho, só que meu café sempre foi amargo e puro, como o que sinto por ela, então calo, e sorrio meu sorriso que muita gente acha bonito sem enxergar que sou todo fodido e infiltrado, careado e com a polpa morta, talvez ninguém tenha a luz dos dentistas, e sei que tem alguma coisa muito errada comigo, e não estou  falando de canal, e o Betinho, o Betinho também tem muita coisa errada, se fodeu muito, o playboy que todo mundo quer que se foda porque, se sempre teve tudo e mesmo assim se fodeu, então foi porque quis, e por um tempo ele foi mesmo marginal,  mas sem nunca ser herói, as paredes também mentem, mas pelo menos ele acha que sabe a causa, teve o pó, o crack, esse monte de coisa que dá prazer e que serve também para ser culpado de quase tudo, é muito bom ter algo para apontar o dedo, sei lá, no começo, no meu primeiro dente, talvez até na trincada do segundo, eu fiquei meio desesperado, e respirei fundo, colado na noção de que dá para fazer alguma coisa, de que é só ter mais cuidado ou atenção, mas agora, bem, agora é diferente, a verdade é que agora estou puto porque vai doer, e terei que voltar naquele consultório não sei quantas vezes, e o preço será absurdo, e o dente mesmo eu quero é que se foda, porque chega esse tempo em que se preocupar com esse tipo de integridade é querer tapar a enchente com o dedo,  e tem essa dor insuportável,  pego um alicate prateado da gaveta, bato para sentir o dente fodido e sai um barulho oco, melhor seria um pequeno martelo,  vou acabar com essa merda agora, virar o homem de ação que Ana sempre quis, eu só queria alguém para limpar esse sangue todo, e tem o Betinho, nunca entendi direito porque ele se preocupa tanto com os dele, ele, que teve aquelas convulsões de bater a cabeça no chão, que vomitou na sala da mãe, que deu a bunda pelo pó e que agora está ali, coberto de guias e espreitado pela recaída. O lance dele é mesmo os dentes. Engraçado. Falando agora, tenho a impressão que, não fosse isso, Betinho engoliria todo esse drama como quem engole um raio de sol

segunda-feira, agosto 01, 2016

Ampulheta


Ampulheta



Jaime queria poemas

que durassem

eras longínquas.



Brielle fazia

cirurgias

na cara.



Michel pagava

o congelamento

da própria carne.



Darcia se estapeava

pela efemeridade

vazia.



Jean

só comia

sem agrotóxicos.



Mauro fotografava

Tudo

tanto.



Para Abdul,

é dádiva morrer

da vida.